Caricatos



Quase 10 anos morando aqui e confesso que não me acostumo com o jeito dos transeuntes de segurarem suas bolsas.

Você deve estar se perguntando aqui onde, Michelle?

Deixa isso para lá! Só quero falar um pouquinho dessa cultura do medo que deixam as pessoas tão caricatas.

Antes era estranho, muito estranho. Hoje já sei que é um hábito daqui, agarrar-se à sua bolsa como se qualquer pessoa que passasse do seu lado fosse um criminoso e quisesse atacá-lo.

Até quem não é criminoso é criminalizado. A impressão que dá é que as pessoas acham que serão atacadas a qualquer momento.

Ando saudosa de bons dias, sorrisos largos, amistosidade. Confesso que para mim já deu.

Como seria possível a amistosidade se basta estar na rua para se tornar um suspeito?

São quase 10 anos na tentativa de me refazer. Confesso que já perdi as contas.

Tem dias que acordo com mais força, noutros nem tanto!

Vivo de atualizar resiliência, de acreditar em relações profundas, MAS, é tudo sempre tão raso, tão passageiro, tão insosso.

Às vezes  parece até poético a forma como as pessoas seguram suas bolsas. Bem agarradas. É nítido o medo de uma retirada brusca iminente.

Não julgo! De onde eu venho talvez eu andasse assim também, ou não. Faz tanto tempo.

Tenho preservado meu mundo, meu mundo interior no qual os braços estão livres para acenar, em que há tempo para conversar, enxergar.

Em breve uma década. Quando vou me acostumar com isso?



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